Janeiro, 2026
Amar é ter, no coração, uma larva
Naquela exata moldura
do dia treze de janeiro,
o céu era bruma, estava frio e Laura apresentava-se perfeita!
Com as suas pernas estridentes e esganiçadas,
entrou num anfiteatro de nostalgias,
um bar, daqueles propícios a quem se dá a reencontros.
Era um lugar que gosta de iluminar caminhos antigos e devolver memórias enterradas!
Não esperava encontrá-lo ali.
Não de novo.
Não o Miguel!
Era uma espécie de pânico bom!
De olhos temporariamente calcificados,
um tormento veio-lhe à cabeça, como se um sentimento coagulado pelo tempo a chamasse de volta ao princípio!
Ah, aquele passado! Foi demasiado recortado para durar!
Um passado varrido para debaixo do tapete.
Laura, que nunca foi entusiasta de recaídas, naquela noite vacilou.
No entanto, era uma mulher segura e de muitos gastos em sensualidade.
A idade não lhe pesava e era dona de um corpo talhado para o prazer e para a guerra.
Mantinha-se voluptuosa. Vestia unhas de cor escura e obsidiana e tinha a cintura mais cruel da natureza. Quando o viu, estremeceu de susto, que até a respiração ficou órfã de reações por três segundos!
Miguel estava mais maduro, sábio e bonito,
de traços mais serenos e grisalhos
e os olhos,
aqueles olhos castanhos, eram os mesmos que a perseguiam nos sonhos!
Laura olhava-o como quem vira a cabeça fingindo que não vê, encaminhando-se à mesa que a esperava.
Amigos ali riam, bebiam e brindavam a tempos idos.
Por entre gargalhadas roubadas e devolvidas, Laura sentia o peso de um olhar, como se um pecado benigno lhe incendiasse a pele!
Eram sorrisos que não mentiam e olhos que ofereciam regalias.
Ele assumia uma postura relaxada, mas sem nunca admitir que para o desejo que tinha, oceanos eram apenas gotas!
A noite avançava frenética, como bolas de canhão que voam contra as fortalezas.
Copos multiplicavam-se enquanto barreiras ruíam e feitiços se uniam!
Entre trocas de olhares e piadas soltas, Miguel ficou preso num pensamento que tanto repelia quanto desejava: numa bandeja de prata, a Laura toda nua!
Os amigos dispersaram, perdendo-se em detalhes ao redor de carros que esperavam pelos donos.
Ficaram os dois rodeados por silêncios que diziam mais do que mil palavras.
— Não mudaste nada — disse Miguel, quebrando a tensão.
Laura arqueou a sobrancelha, desafiadora:
— Engano teu. Mudei, e muito.
Ela desviou o olhar, tentando manter a compostura, para não acelerar uma respiração já descontrolada.
Como um rio que conhece as suas profundezas, também eles se conheciam muito bem!
E estavam tão apanhadinhos!
Os dois aproximaram-se do balcão com uma cobiça assim tão de joelhos, que até um cinzeiro ali perto ardia cheio de medo. Por entre gins e palpitações, a conversa adensa-se, tornando-se mais íntima e carregada de malabarismos e apalpações.
Provocações surgiam constantes, como se quisessem violar cada segundo do relógio!
Até que num piscar de olhos e sem saber como,
cabeças estavam inclinadas para a frente, a roçar o constrangedor e estranho,
ao mesmo tempo que rabos, nas pontas dos bancos, estavam tensos e ansiosos como os donos.
A respiração do Miguel acariciava-lhe a pele, e Laura, incapaz de recuar, murmurou:
— Isto é má ideia.
— Talvez — respondeu ele, baixinho — mas desde quando é que nós seguimos boas ideias?
Ambas as bocas estavam cheias de quereres e venenos.
Lábios cheios e húmidos pediam proximidade a um beijo que veio com violência contida, como se tempos de raiva, mágoa e desejo reprimido, explodissem num só momento!
Miguel prendeu-lhe a cintura, Laura cravou-lhe as unhas nas costas como um punhal que se enterra, ao mesmo tempo que saíam do bar sem trocar uma palavra! Apenas carregavam uma espécie de estado febril incontrolável.
Não havia ternura naquela noite, mas havia verdade e muita tesão!
Uma verdade crua que ambos tentaram esconder do destino.
Laura e Miguel saíram dali como quem foge de tudo e de si mesmos.
Tinham olhos de predadores, virados para a frente, sérios e ameaçadores.
Caminhavam desenfreados como cães selvagens, quase em silêncio, até que ele lhe segurou o braço, perguntando:
— Tens a certeza? — perguntou o de voz rouca.
— Meu querido, agora ou matas-me, ou tens de me prender! — respondeu ela, encarando Miguel com o mesmo olhar que sempre o enlouquecera.
O beijo foi bruto, devasso e contra uma parede qualquer.
Depois, entre risos ofegantes e passadas largas, seguiram para o carro do Miguel.
Laura encostou-se ao banco, cruzando as pernas devagar, sabendo exatamente o efeito que causava.
Miguel, ao pequeno lóbulo da sua orelha faz um pedido:
— Chupa-o até às lágrimas, Laura — disse ele, sem saber o que pedia.
Miguel tinha-se esquecido da sensação que só ela era capaz de lhe proporcionar.
E ela sabia disso!
Laura era capaz de o fazer ir às nuvens, tais eram as suas habilidades de sucção!
Ela não respondeu. Auxiliou-o a baixar a roupa e brincou com o seu amigo grosso e pontiagudo que não via há uma década!
Miguel conduzia desnorteado, somando retas e curvas imprudentes enquanto acariciava as duas varas que os seios firmes de Laura carregam!
Tão rígidos e vaidosos que estavam!
A mão direita do Miguel, com três dedos húmidos, brincava lá em baixo, onde mora uma roseira-brava como a dona, desenhando espirais de fogo sobre uma carne em brasa, túrgida e ensopada em pura inquietação.
Ninguém ali tinha consciência da quantidade de tragédias que poderiam ter acontecido em quinze minutos!
— Já não sei se paro o carro ou continuo! — murmurou ele.
— Faz de conta que és uma ambulância. Dói tudo, Doutor, mais aqui em baixo! — respondeu ela, mordendo o lábio inferior.
O caminho até à Trafaria foi serpenteado pelas ruas mais tortas da vila, vá-se lá saber porquê!
Foi um misto de risos, travessuras e gemidos, todos carregados de uma cumplicidade que reacendeu a sensação de serem donos da própria loucura.
Finalmente chegaram ao quarto do Miguel.
Uma porta branca deixou antever um céu com paredes à prova de bala e pedidos de socorro!
Mal a porta se fechou, voltaram a colidir!
Era uma sarabanda de rixas e embates, gritos mecânicos e repetitivos, enquanto a roupa se diluía lentamente nos tapetes.
Eram corpos que só pediam horizontalidade e colisões!
Ambos, com o problema de estarem cheios de tesão, deram asas a um desejo que vinha misturado com raiva e ódio, como se cada gesto dissesse “odeio-te, mas quero-te!”.
Ela empurrou-o contra a parede e ele agarrou-lhe a cintura com toda a força.
Fundiram-se depois tesões, taras e peles. Palavrões eram arremessados, alguns proibidos, outros secretos, invocando um passado recorrente.
Beijos eram urgentes e violentos, mas carregados de verdade, uma espécie de chá agasalhador e revigorante até à próxima ronda!
E foram tantas!
Regras eram quebradas, uma a uma, entre risos, cambalhotas e tropeços.
A estridência já não tinha vergonha, era puro folclore!
A geografia do quarto reduziu-se então a dois corpos ofegantes, uma cama e muitos dentes cerrados!
Não havia espaço para ternuras, apenas sexo puro e duro, enquanto ouviam um disco de vinil que tocava mais alto do que qualquer problema que pudesse surgir!
Um reencontro de corpos que nunca se tinham esquecido.
Pela manhã,
o dia estava lindo,
o céu sem água pra chorar,
o vento ainda dormia e o mundo pedia-lhes para ser explorado!
O amor não é estático.
Amar é ter, no coração, uma larva,
que é como quem diz:
ambos sabiam que aquela noite mudaria tudo outra vez.
porque
me pediram para retratar em prosa, o dia 13 de Janeiro da Laura e do Miguel