Dezembro, 2025
Minha estrela-d'alva
Estrela-d’alva
o que te chamava
em homenagem a Vénus
o planeta
quando este como tu
brilhante
anuncia o amanhecer
(a "alva")!
Já te amei outrora
lá para trás
desde a invenção do fogo
mas hoje
como flocos de neve
que nem se dá por eles
choram para o chão os olhos
os teus e os meus
como as estradas deprimidas
que não tem para onde vazar
as suas lágrimas!
será que vão chorar para sempre?
És deusa!
mãe dos ventres férteis
dos telhados inclinados
que nos levam para casa
dos crimes ferozes por cometer
e dos acasalamentos
para o resto da vida!
Com a quietude de ovelhas pastando
ao longe um cata-vento
pergunta quantos filhos queremos
não sabemos!
somos meloso fardo suave terra
um ato de resistência até
e com pouca fé
relutantes
como portas entreabertas
e suspirando
como dois exilados
perguntamos
como não mergulhar na relutância
caminhando numa corda tão magra?
Pedimos a Deus mais continuidade
mas em vão
porque repetidamente
mandamos anéis de noivado para o chão
como gaivotas
que sujam vestidos de casamento!
Talvez
pela secura de sucessivos desertos
onde o bolor da parvoíce se infiltrou
hajam telhados de vidro incertos!
são vidros cansados
de quem amou!
O carma segue frágil
como pedras que adoecem no rio
enquanto adiamos a manhã
mas nunca chegando
só uivando!
e depois
descrentes como queixumes brandos
seguramos uma flor com toda a força!
A lareira
cheia de reticências
não sabe o que pensar!
tem na gaveta do medo
coisas nossas!
Silêncios comem palavras
palavras lambem promessas
e promessas não valem nada!
o que fazer a seguir?
lutar ou fugir?
O dilúvio ajuda-me a pensar!
meus braços usam meu pensamento
para te dar um abraço
trancado e lento
e em cada lágrima do meu pensar
outro sofrimento!
Tínhamos tudo para ser perfeitos
só que laços desfazem-se
oceanos também recuam
e toda a história
se não for um episódio
tem que ter um fim!
A manhã nasce então num céu satisfeito
e assim minha estrela-d'alva
empoleirados nas asas de um estorninho apaixonado
caminhamos de volta
cada um
a sua casa
que é outra forma de dizer
"saudade"!
dedicado a:
Vénus, deusa romana do amor, beleza e desejo