Minha estrela-d'alva

Minha estrela-d'alva


Estrela-d’alva
o que te chamava
em homenagem a Vénus
o planeta
quando este como tu
brilhante
anuncia o amanhecer
(a "alva")!

Já te amei outrora
lá para trás
desde a invenção do fogo
mas hoje
como flocos de neve
que nem se dá por eles
choram para o chão os olhos
os teus e os meus
como as estradas deprimidas
que não tem para onde vazar
as suas lágrimas!
será que vão chorar para sempre?

És deusa!
mãe dos ventres férteis
dos telhados inclinados
que nos levam para casa
dos crimes ferozes por cometer
e dos acasalamentos
para o resto da vida!

Com a quietude de ovelhas pastando
ao longe um cata-vento
pergunta quantos filhos queremos
não sabemos!
somos meloso fardo suave terra
um ato de resistência até
e com pouca fé
relutantes
como portas entreabertas
e suspirando
como dois exilados
perguntamos
como não mergulhar na relutância
caminhando numa corda tão magra?

Pedimos a Deus mais continuidade
mas em vão
porque repetidamente
mandamos anéis de noivado para o chão
como gaivotas
que sujam vestidos de casamento!

Talvez
pela secura de sucessivos desertos
onde o bolor da parvoíce se infiltrou
hajam telhados de vidro incertos!
são vidros cansados
de quem amou!

O carma segue frágil
como pedras que adoecem no rio
enquanto adiamos a manhã
mas nunca chegando
só uivando!
e depois
descrentes como queixumes brandos
seguramos uma flor com toda a força!

A lareira
cheia de reticências
não sabe o que pensar!
tem na gaveta do medo
coisas nossas!

Silêncios comem palavras
palavras lambem promessas
e promessas não valem nada!
o que fazer a seguir?
lutar ou fugir?

O dilúvio ajuda-me a pensar!
meus braços usam meu pensamento
para te dar um abraço
trancado e lento
e em cada lágrima do meu pensar
outro sofrimento!

Tínhamos tudo para ser perfeitos
só que laços desfazem-se
oceanos também recuam
e toda a história
se não for um episódio
tem que ter um fim!

A manhã nasce então num céu satisfeito
e assim minha estrela-d'alva
empoleirados nas asas de um estorninho apaixonado
caminhamos de volta
cada um
a sua casa
que é outra forma de dizer
"saudade"!

Dezembro, 2025

dedicado a Vénus, deusa romana do amor, beleza e desejo




Vela de aço não de parafina!

Vela de aço não de parafina!


Incrédulo
como quem entorna um vinho caro
enxergo ao longe uma silhueta!
é bela e preta!
até o ar trava a sua chegada!
que caminhar ela tem!
pensava que era outro alguém
mas eras tu
brilhante como a luz do sol
que veste pela janela
uma casa inteira!

Começou assim
uma aragem com algo inconcebível
que me fez levantar a cabeça!
e por onde quer que passes
todos os cantos da rua
tagarelam que és a mais bela!

Permaneces doce e preservada
como legumes no vinagre!
ah esse perfume
do caminhar cinético dos teus sapatos
que dum silêncio de algodão
se fazem passos de dança!

Fico entusiasmado
como a cerveja fica à tona do copo
e chamo-te
como se chamasse o sol para mais perto!

Um delírio abriu meu pensamento
por ti que gemes o meu nome
e tocas-me
como se fosses oleira de profissão!
ah essa tua maneira clandestina de beijar!
e beijas-me
e do nada
dás-me com a tua boca oval e encarnada
uma nota de advertência dizendo
‘molesta-me Serafim
meu cavalinho de tração!'
executo ligeiro o teu pedido
profanando-te o corpo
com uma vara que atrai
uma bezerra faminta
que chama pelo leite vulcânico do pai.

Ó Deus
que nos puseste um fado no colo
recozido e repassado
como um anzol que causa dependência!
não temos mais tempo a perder
porque ele
o tempo
não é como o vosso
eterno!

Recolho depois
toros de lenha cascas de pau
pra incendiar mais ainda
o mecanismo de esfregar e transpirar
a que chamamos fogueira!

Temos pressa
e a cavalo nela vamos em fuga
percorrendo mais fronteiras que o vento
e no ápice
em que um fósforo entra em combustão
dou à luz o meu punhal
antes sequer de alguém se despir!

que embaraço!

No entanto em linha reta
línguas em êxtase aprendem nós de marinheiro
enquanto nós crianças
namoriscamos
como ladrões que acariciam o que não é deles!

Já em alto comprimento
despimo-nos sem preâmbulos ou perguntas
e teus seios pontiagudos
atrevidos como melões novos
e lindos como potros
olham para cima!
quero pô-los ‘de gatas’ com a língua!

Subjugo-te a nuca como a um boi
e teus lábios abraçam o meu instrumento
para que eu receba
a sensação de uma porta bem trancada!

Calor temos depois o mais quente
um matar-morrer adolescente
e no espelho um pânico vermelho
que diz
‘afastem-se que o osso é meu!’

Tenho agora três pernas
a do meio
uma vela de aço não de parafina!
ela cura é feiticeira é medicina
e chama-se Serafim!
ah benditas colisões! sim!
benditos cozinhados que fazemos
é com ervas doces que nos comemos!
um carrega o outro adiciona força!
parece que temos pólvora debaixo dos umbigos!

Com os nossos bicos alongados
e virilhas em ângulos ofensivos
batemo-nos cada vez mais!
‘bate-me meu amor mais e mais!’
um monte pélvico
e um osso que não se pode torcer
fazem peso na cama em ruínas
enquanto a gata na outra ponta
baloiça e procura adormecer

A cama
que até cascalho lavado servia
tudo nela se fazia
como coitos paralelos e deslizantes
que nos puxam como as marés!
e lá vamos nós
sequiosos e beligerantes
como quem come e bebe sem pagar
fornicar de todas as maneiras
ora com porrada e asneiras
ou sofisticados e esquisitos
como um fidalgo
‘que bem tu montas
e tão bem eu cavalgo!’

Com duas cores assim te como
encarnado bruto e sereno amarelo
e d’alternados jeitos eu te tomo
devagarinho ou então martelo!

Sou um beija-flor que enfia
com meu bico alongado
tudo até às bordas da ousadia
da tua flor com o meu arado
que come e bebe e também pia
com um piar apaixonado!

Tão miúdo é o mar
diante do que tenho para verter!
que nome dar a testículos que não morrem?

Eu quase clemente
e tu moída por trás e pela frente
enquanto me venho e tu já vencida
somos navio que flutua
sobre a massa das águas!
e nós
que nos comemos até à côdea
apenas deixamos aos pardais
sementes cheias de nada.

Ó vulva suada
tão achatada pela guerra
coitada dela
daquela desgraçada
e coitado de mim
que digo ‘coitada dela’
pois comi-a como chupo tangerinas!
lavar descascar lamber e depois comer!
não te ergas mais da cova senhora!
deixa-te estar aí morrida!
malvada, que não te cansas!
e é por causa dela
que arremesso versos como lanças!

De pénis amolecido como um figo em calda
digo que és linda até à aflição mulher!
e é por esta razão
que sou teu prisioneiro.

Já esgotados
tu ferida eu com os maiores hematomas
recolhemo-nos assim
ao trivial estatuto
de comer dormir fornicar e voltar a fazer
no dia seguinte
tudo de novo!

Dezembro, 2025

dedicado ao incansável Serafim




Busso mio

Busso mio


Arese
patria dei tenori
timbri metallici
e nobili motori
il maestro italiano
rullano i tamburi
con il volante in mano
lasciatemi amare
il tuo cuore furente
nato per cantare
velocemente!

Dezembro, 2025

dedicado a Giuseppe Busso




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