Escritos 2026 (13)
Doce Suplício
Paixão é um amargo e doce prazer
É temporal que vem de repente;
É um fogo que gela, subitamente;
É o que faz o peito estremecer.
É veneno que destila sem se ver;
É tremor frio que na alma se sente;
É o bater de uma asa, impaciente;
É uma flor-de-lótus por nascer.
É querer ser morto por ingenuidade
É servir a quem teima em nos matar;
É ter de quem nos aflige, saudade.
Mas como pode um espinho plantar
Nos peitos, um amor de verdade,
Se quase ninguém sabe o que é amar?
Fevereiro, 2026
porque me apeteceu fazer um soneto camoniano sobre a paixão
Dínamos de carne
Leonor,
não me olhes com esse peso,
pois quando me olhas com tal fome,
já me possuis, sem me teres tocado.
E isso, meu amor, é desperdício — é pecado!
Ah, a febre de sentir tudo com todos os poros!
A nossa carne não é carne: é um dínamo em curto-circuito,
uma maquinaria de suor e de dentes a ranger contra o silêncio absurdo das estrelas!
A luxúria acorda, visceral e bruta: um banquete de nervos e impacto!
Leonor, minha santa padroeira da insatisfação,
não trago rosas para a tua mãe, trago antes um par de algemas para nós!
O que o teu corpo me faz, nenhuma palavra teria o condão.
Colhamos o prazer enquanto a mão do fado, que não cessa, o permite.
Não há regras nem pausas neste embate!
Sinto-me um girino em águas estranhas, mas quentes,
à espera da metamorfose e mais pulmão, porque me sugas até o ar que respiro!
Nove poemas foram então escritos na pele de dois dínamos de carne!
Nove! Devíamos receber medalhas por isso.
Não me venhas com rimas de seda ou suspiros ao luar!
Não quero o amor que se explica, quero o que devora!
Eu quero a eletricidade bruta, o roçar do aço na carne
uma espécie de motor em regime de sobrecarga!
Quero que o suor nos cole as almas, como duas folhas de papel queimado!
Esfrega a tua vida contra a minha até sair lume!
Que se lixe a alma, que se lixe o sentido das coisas.
Agora somos só uma pressa de desastre, onde o prazer dói como uma ferida aberta e necessária.
Roça a tua pele na minha até que os nossos nomes se apaguem,
até que não reste nada de civilizado, nada de lírico, nada de humano —
apenas o estalo de um chicote sem boca e sem remorso!
Ó minha Leonor potente, morde-me, minha serpente!
O prazer só é pleno quando é encarnado,
por isso possui-me, meu amor,
naquele teu ritmo cego que o tempo suspende,
onde o céu se resume à nossa força canibal.
Não me fales de amor — o amor é um conceito morto no nosso dicionário.
Fala-me desta urgência de mastigar o minuto
como se fosse uma fruta elétrica!
Dois corpos? Não! Dois universos que colidem naquele quarto escuro de Lisboa,
com o barulho dos elétricos lá fora, a marcar o ritmo da próxima ronda.
Ah, este sangue que tanto acende o seu pavio vermelho...
Nove detonações são um crime, um incêndio, um furto!
O prazer é o destino
e a loucura é a viagem que rasga todos os mapas que o mundo inventou.
Roda e range, engrenagem do sexo!
Até que o prazer seja apenas um cansaço absoluto
e a noite se feche sobre nós como uma pálpebra de ferro.
Tudo é pouco, quando o tempo se esquece de ser lembrado.
O beijo é uma tentativa falhada de canibalismo.
O abraço é uma corda que não aperta nada
e no auge do espasmo, quando a alma se desfaz em centelhas,
resta apenas o cansaço...
O frio de perceber que, depois da escaramuça, a carne arrefece
e continuaremos tragicamente sós, com o cheiro do outro na pele e o vazio de Baco no peito.
O meu cigarro,
que já vai com uma ponte de cinza quase do seu tamanho,
diz-me que quando a luz se fundir e o estalo passar,
a flor murchará sem nenhum aplauso, a ouvir o silêncio a crescer, como bolor nas paredes.
Este escrito, Leonor,
é a única prova de que existiu aquele lugar,
do que fomos — dínamos de carne — naquele dia.
Fevereiro, 2026
porque o elétrico parece que fazia de propósito
Às vezes, o amor é só isto!
O amor é aquilo que fica
quando o barulho se cala.
Não é a promessa inteira,
mas a parte que resiste
mesmo quando ninguém cobra.
O amor é um gesto mínimo:
ficar.
Mesmo quando ir
seria mais simples.
Não pede sentido,
mas constrói um.
Não reclama futuro,
mas aguenta o tempo.
O amor é uma forma de atenção
que não se distrai.
Uma aceitação silenciosa
do que o outro é,
sem corrigir.
O amor é luta e cuidado,
e é o ato simples de atravessar o mundo
para estar
do outro lado.
E às vezes, o amor é só isto:
não salvar,
não mudar,
mas acompanhar
até onde for possível.
Guardo o que foi
com cuidado
e mando-te um beijo
por teres ficado.
Até já, meu amor.
Fevereiro, 2026
porque as pessoas complicam tanto o amor?
Língua de ecos, legado de Luz
Não deixamos coisas,
deixamos ecos.
O que fomos fica suspenso
entre o gesto e a memória,
como um copo esquecido numa mesa
depois da conversa acabar.
Pensamos herdar o mundo,
mas é o mundo que nos herda
em pequenos hábitos:
um modo de olhar,
uma dúvida repetida,
um medo que ensinámos sem querer.
Somos mais consequência
do que intenção.
Mais rastro do que passo.
O legado não é o nome gravado na pedra,
é o pó que a pedra solta
ao se misturar com o vento.
O legado que fica gravado em pedra,
passado com zelo, peito e dedicação
é um musgo que em silêncio medra
do que em vida deste com o coração.
A cadeira que fica, quando a luz se apaga,
o calor guardado de quem nela se sentou
não é o som do mar, mas a lição da vaga
que a areia submissa e fria, conservou.
Sou o que espera que a terra me tome
no solo que acolhe todas as heranças;
o meu verdadeiro rosto não terá nome,
será apenas brilho no olhar das crianças.
Fica o verso, esse morto que ainda fala,
fingindo a dor, que se calhar nem tive.
O legado é uma plateia viva numa sala
onde o ator morre e o eco vive.
E quando já não estamos,
algo continua a acontecer
em nosso nome —
não por memória,
mas por continuidade.
Talvez viver seja
não durar,
mas alterar levemente
a direção dos que vêm depois.
No fim, deixamos apenas isto:
a forma como o mundo
fica um pouco diferente
depois de termos passado
por ele distraidamente.
E talvez baste.
Fevereiro, 2026
porque o mundo precisa de legados bons
Resta a saudade, na dobra do vento
Sinto-me longe do que estou sentindo,
como se a alma fosse um cais deserto,
onde um navio parte, e eu, partindo,
fico a ver o mar, tão longe e tão perto.
Não sei se hoje aqui estou mentindo
neste pensar que não sei se é certo:
o que sinto, é que o mundo morreu
e quem o sente já não sei se sou eu.
Passei a vida a ver-nos de fora,
como o sol vê um jardim de cores,
nascendo, mas nunca indo embora
e trazendo apenas brilho e flores.
O que é que o meu coração ignora
neste cansaço de regar as dores?
É que a busca, de tão lúcida e fria,
faz da sua procura uma ironia.
Dorme, meu ser, que pensar cansa
e o destino é apenas o que se vê.
Não queiras ter fé ou esperança,
pois nada do que foi, ou será, é.
A vida é uma eterna e vã mudança,
sem um quando, um onde ou porquê.
Resta a saudade, na dobra do vento,
e viver um milénio num só momento.
Ficou um calor que não se explica,
um borralho onde a mente naufraga.
Nada mais ali se acende ou edifica,
pois toda a chama que não arde, apaga.
A sorte que a vida baralha e complica
é apenas o eco de quem aqui divaga,
ficando o silêncio sem rima ou razão
na palma aberta da tua e da minha mão.
Fevereiro, 2026
dedicado a Eugénia das Neves Mateus
Ó Sesimbra, erguida contra o vento
Pela serra, descendo até ao mar
uma estrada serpenteia pelo vento
até que uma baía nos vem abraçar
e a vila aparece, como um nascimento.
No coração de Sesimbra, imponente
uma fortaleza impõe firme o seu olhar
protegendo a baía e toda a gente
enquanto vigia as ondas do mar.
A traineira chega ao pontão cansada
ao braço de pedra que a viu partir
e no fim do dia, daquela jornada
no porto de abrigo, ela quer dormir.
Lá no alto do monte e em granito
o castelo avista um veleiro ao fundo
é um navio-escola e ele é bonito
vigia Sesimbra e o resto do mundo.
Nas ruas da vila, a procissão vai lenta
de colchas à janela e alecrim no chão
a alma do povo na fé se sustenta
abençoando o pexito e a embarcação.
São rimas que a onda escreve
na Praia do Ouro, poemas no chão
uma renda de espuma fria e leve
que borda de calma a nossa visão.
Azul-turquesa, leitosa e pedrinhas
entre falésias, um paraíso guardado
o Ribeiro do Cavalo, de belas linhas
é um postal por Deus desenhado.
No forno de lenha, os ingredientes:
farinha, ovo, açúcar e raspas de limão
é a farinha torrada das nossas gentes
ouro de Sesimbra e de toda a nação.
Sesimbra despoja-se da sua brancura,
no cortejo de palhaços mais aguardado
é segunda-feira e é a pexita da loucura
em que um mar de palhaços é pintado.
René, um holandês amargurado
que o destino um dia quis castigar
num banco de pedra vive ancorado
de alma rendida ao balanço do mar.
Ó Sesimbra, que me fazes rimar
palavras já são desertos ao relento
pois já não tenho mais pra te cantar
ó Sesimbra, erguida contra o vento!
Janeiro, 2026
porque Sesimbra é a vila mais bela!
Oração a Baco
Baco nosso, que estais no céu
consagrado seja o vosso vinho
venha a nós o vosso alimento
que nos leve por um caminho
que não nos retire o sustento!
Ao copo nosso de cada dia
perdoai gotas caídas ao chão
assim como nós perdoamos
os que não tem bebido
e não nos deixeis cair em tentação
de beber sem ter comido.
Pai nosso, que estais no altar
aceita, ó mestre, a nossa libação
pois enquanto houver copos pra elevar
haverá um Deus vivo em cada mão!
O vinho
que nos lave as mágoas
e que caia do céu
lá do alto em flocos lentos
brancos ou tintos movimentos
para que eu possa em delírio e prece
devorar a neve que o céu me oferece.
Baco, irmão de vício
bebi o mundo e tropecei na sombra
e por tal razão, hoje
acho que vou dormir mais do que a cama!
Ámen
Janeiro, 2026
Tributo a Baco, Deus do vinho e dos excessos
Amar é ter, no coração, uma larva
Naquela exata moldura
do dia treze de janeiro,
o céu era bruma, estava frio e Laura apresentava-se perfeita!
Com as suas pernas estridentes e esganiçadas,
entrou num anfiteatro de nostalgias,
um bar, daqueles propícios a quem se dá a reencontros.
Era um lugar que gosta de iluminar caminhos antigos e devolver memórias enterradas!
Não esperava encontrá-lo ali.
Não de novo.
Não o Miguel!
Era uma espécie de pânico bom!
De olhos temporariamente calcificados,
um tormento veio-lhe à cabeça, como se um sentimento coagulado pelo tempo a chamasse de volta ao princípio!
Ah, aquele passado! Foi demasiado recortado para durar!
Um passado varrido para debaixo do tapete.
Laura, que nunca foi entusiasta de recaídas, naquela noite vacilou.
No entanto, era uma mulher segura e de muitos gastos em sensualidade.
A idade não lhe pesava e era dona de um corpo talhado para o prazer e para a guerra.
Mantinha-se voluptuosa. Vestia unhas de cor escura e obsidiana e tinha a cintura mais cruel da natureza. Quando o viu, estremeceu de susto, que até a respiração ficou órfã de reações por três segundos!
Miguel estava mais maduro, sábio e bonito,
de traços mais serenos e grisalhos
e os olhos,
aqueles olhos castanhos, eram os mesmos que a perseguiam nos sonhos!
Laura olhava-o como quem vira a cabeça fingindo que não vê, encaminhando-se à mesa que a esperava.
Amigos ali riam, bebiam e brindavam a tempos idos.
Por entre gargalhadas roubadas e devolvidas, Laura sentia o peso de um olhar, como se um pecado benigno lhe incendiasse a pele!
Eram sorrisos que não mentiam e olhos que ofereciam regalias.
Ele assumia uma postura relaxada, mas sem nunca admitir que para o desejo que tinha, oceanos eram apenas gotas!
A noite avançava frenética, como bolas de canhão que voam contra as fortalezas.
Copos multiplicavam-se enquanto barreiras ruíam e feitiços se uniam!
Entre trocas de olhares e piadas soltas, Miguel ficou preso num pensamento que tanto repelia quanto desejava: numa bandeja de prata, a Laura toda nua!
Os amigos dispersaram, perdendo-se em detalhes ao redor de carros que esperavam pelos donos.
Ficaram os dois rodeados por silêncios que diziam mais do que mil palavras.
— Não mudaste nada — disse Miguel, quebrando a tensão.
Laura arqueou a sobrancelha, desafiadora:
— Engano teu. Mudei, e muito.
Ela desviou o olhar, tentando manter a compostura, para não acelerar uma respiração já descontrolada.
Como um rio que conhece as suas profundezas, também eles se conheciam muito bem!
E estavam tão apanhadinhos!
Os dois aproximaram-se do balcão com uma cobiça assim tão de joelhos, que até um cinzeiro ali perto ardia cheio de medo. Por entre gins e palpitações, a conversa adensa-se, tornando-se mais íntima e carregada de malabarismos e apalpações.
Provocações surgiam constantes, como se quisessem violar cada segundo do relógio!
Até que num piscar de olhos e sem saber como,
cabeças estavam inclinadas para a frente, a roçar o constrangedor e estranho,
ao mesmo tempo que rabos, nas pontas dos bancos, estavam tensos e ansiosos como os donos.
A respiração do Miguel acariciava-lhe a pele, e Laura, incapaz de recuar, murmurou:
— Isto é má ideia.
— Talvez — respondeu ele, baixinho — mas desde quando é que nós seguimos boas ideias?
Ambas as bocas estavam cheias de quereres e venenos.
Lábios cheios e húmidos pediam proximidade a um beijo que veio com violência contida, como se tempos de raiva, mágoa e desejo reprimido, explodissem num só momento!
Miguel prendeu-lhe a cintura, Laura cravou-lhe as unhas nas costas como um punhal que se enterra, ao mesmo tempo que saíam do bar sem trocar uma palavra! Apenas carregavam uma espécie de estado febril incontrolável.
Não havia ternura naquela noite, mas havia verdade e muita tesão!
Uma verdade crua que ambos tentaram esconder do destino.
Laura e Miguel saíram dali como quem foge de tudo e de si mesmos.
Tinham olhos de predadores, virados para a frente, sérios e ameaçadores.
Caminhavam desenfreados como cães selvagens, quase em silêncio, até que ele lhe segurou o braço, perguntando:
— Tens a certeza? — perguntou o de voz rouca.
— Meu querido, agora ou matas-me, ou tens de me prender! — respondeu ela, encarando Miguel com o mesmo olhar que sempre o enlouquecera.
O beijo foi bruto, devasso e contra uma parede qualquer.
Depois, entre risos ofegantes e passadas largas, seguiram para o carro do Miguel.
Laura encostou-se ao banco, cruzando as pernas devagar, sabendo exatamente o efeito que causava.
Miguel, ao pequeno lóbulo da sua orelha faz um pedido:
— Chupa-o até às lágrimas, Laura — disse ele, sem saber o que pedia.
Miguel tinha-se esquecido da sensação que só ela era capaz de lhe proporcionar.
E ela sabia disso!
Laura era capaz de o fazer ir às nuvens, tais eram as suas habilidades de sucção!
Ela não respondeu. Auxiliou-o a baixar a roupa e brincou com o seu amigo grosso e pontiagudo que não via há uma década!
Miguel conduzia desnorteado, somando retas e curvas imprudentes enquanto acariciava as duas varas que os seios firmes de Laura carregam!
Tão rígidos e vaidosos que estavam!
A mão direita do Miguel, com três dedos húmidos, brincava lá em baixo, onde mora uma roseira-brava como a dona, desenhando espirais de fogo sobre uma carne em brasa, túrgida e ensopada em pura inquietação.
Ninguém ali tinha consciência da quantidade de tragédias que poderiam ter acontecido em quinze minutos!
— Já não sei se paro o carro ou continuo! — murmurou ele.
— Faz de conta que és uma ambulância. Dói tudo, Doutor, mais aqui em baixo! — respondeu ela, mordendo o lábio inferior.
O caminho até à Trafaria foi serpenteado pelas ruas mais tortas da vila, vá-se lá saber porquê!
Foi um misto de risos, travessuras e gemidos, todos carregados de uma cumplicidade que reacendeu a sensação de serem donos da própria loucura.
Finalmente chegaram ao quarto do Miguel.
Uma porta branca deixou antever um céu com paredes à prova de bala e pedidos de socorro!
Mal a porta se fechou, voltaram a colidir!
Era uma sarabanda de rixas e embates, gritos mecânicos e repetitivos, enquanto a roupa se diluía lentamente nos tapetes.
Eram corpos que só pediam horizontalidade e colisões!
Ambos, com o problema de estarem cheios de tesão, deram asas a um desejo que vinha misturado com raiva e ódio, como se cada gesto dissesse “odeio-te, mas quero-te!”.
Ela empurrou-o contra a parede e ele agarrou-lhe a cintura com toda a força.
Fundiram-se depois tesões, taras e peles. Palavrões eram arremessados, alguns proibidos, outros secretos, invocando um passado recorrente.
Beijos eram urgentes e violentos, mas carregados de verdade, uma espécie de chá agasalhador e revigorante até à próxima ronda!
E foram tantas!
Regras eram quebradas, uma a uma, entre risos, cambalhotas e tropeços.
A estridência já não tinha vergonha, era puro folclore!
A geografia do quarto reduziu-se então a dois corpos ofegantes, uma cama e muitos dentes cerrados!
Não havia espaço para ternuras, apenas sexo puro e duro, enquanto ouviam um disco de vinil que tocava mais alto do que qualquer problema que pudesse surgir!
Um reencontro de corpos que nunca se tinham esquecido.
Pela manhã,
o dia estava lindo,
o céu sem água pra chorar,
o vento ainda dormia e o mundo pedia-lhes para ser explorado!
O amor não é estático.
Amar é ter, no coração, uma larva,
que é como quem diz:
ambos sabiam que aquela noite mudaria tudo outra vez.
Janeiro, 2026
porque me pediram para retratar em prosa, o dia 13 de Janeiro da Laura e do Miguel
O beijo que jamais me cansarei de beijar!
Diz que ela ficou noiva
de um enlace que não vai acontecer
e que não lhe ama nada, muito menos as chagas!
as do barão!
e então
de mãos dadas, ele e a Rainha
reticentes tomam balanço em vão
porém ela, duas lágrimas sustinha
antes de pularem um frio alçapão!
nem eu era teu, nem tu eras minha
nem isto se faz ao idiota do barão!
a Rainha desta missão
e o outro de rosto impaciente
que era eu
tiveram depois uma noite ardente
temperada com ervas, gotas de tabasco e prazer!
que bela ração para um Rei comer!
brindemos a uma noite colorida
em que te dou a volta e a mão
enquanto limpo a lágrima ferida
que cai do teu estranho coração
implorando: “oh minha querida
é maior um Rei que um barão!”
o barão, de inocente confiança
dorme e sonha com sua amada
enquanto a noiva na rua balança
entre os suspiros da madrugada
com quem lhe encanta e dança
sem querer saber de mais nada!
o rústico noivo
que gosta de sonhar sonhos
onde o impossível e o azul são obrigatórios
dorme só e perfumado
por lírios e nostalgia!
já o Rei
olha para o resto da noite com fome
e vasculha dentro daquela fogueira
uma labareda ainda maior!
dizem que é casado com este pesadelo
há mais de oitenta poesias!
bons-dias!
de manhã o cego barão acordou
ao lado da nubente arrependida
que ao Rei à tardinha se curvou
todinha e também foi convencida
a largar o tolo que nunca amou
e a voltar ao castelo de partida!
o barão, levado com a ventania
na história fica só na lembrança
enquanto o melhor beijo do dia
foi aquele dado com a pujança
de quem navegou com teimosia
o duro cabo da boa esperança!
depois
laços foram dados a uma paixão
que não há adamastores que os desatem!
minha Rainha
meu tormento
minha sereia
tens o beijo que jamais
me cansarei de beijar!
beijei o cabo das tormentas
e àquela hora
ele pulsou então pela primeira vez!
Janeiro, 2026
dedicado aos bravos marujos que dobram os seus Adamastores
O Imperador de Portugal
Altruísta e bem criado
coração bom e alargado
alma cândida e especial
a do meu rei de Portugal
por eles invejado
e por elas cobiçado
assim é o corpinho real
do maior sultão de Portugal
voz aguda, um tenor
grave e doce, um cantor
assim é o timbre musical
do imperador de Portugal
ao meu floco de neve
de começo ainda breve
longa vida e coiso e tal
ao maior divo de Portugal
é ou não é
o meu belo imperador
uma cautela premiada?
e depois
o dia terminou
o imperador dormiu
e o poema acabou.
Janeiro, 2026
dedicado a Manuel Mateus
Curuca gigante
É um porto e é seguro
tem barba e pelo duro
é um marujo almirante
o meu Curuca gigante
é bravo e sereno, o lume
é quente e alto e brilhante
assim soa o perfume
do meu Curuca gigante
é de mim, um pedacinho
o meu primeiro pintainho
e o odor mais viciante
é do meu Curuca gigante
é calor é luz é bengala
é muro à prova de bala
dos seus, um vigilante
o meu Curuca gigante
Dulcineia e seu Quixote
no cavalo vão a trote
vai a Catarina cativante
e o meu Curuca gigante
obrigado senhor
por receber amor
do enorme diamante
que é o meu Curuca gigante!
Janeiro, 2026
dedicado a David Mateus
A minha caracolinhos
Alegra toda a gente
e tem um cantar atraente
como o dos passarinhos
a minha caracolinhos
é carochinha à janela
e é fofa e linda e bela
como são os pintainhos
a minha caracolinhos
de alma pura e guerreira
boa cabeça e cabeleira
e vai por bons caminhos
a minha caracolinhos
é mel que ninguém é
caminhando, pé ante pé
com seus doces pezinhos
a minha caracolinhos
porque uma flor deve florir
implorando, volto a pedir
a Deus e a todos os santinhos
o mundo prá minha caracolinhos
Janeiro, 2026
dedicado a Mariana Mateus
Amuletos 7 & 9
Sete punhais e nove machados
em tuas fendas são cravados
por um mastro grande e forte
o meu e os números da sorte:
aos sete cuspia impaciente
e só aos nove ficou impotente!
nove bicadas ele dá e pica
enquanto os tomates encosta
ao traseiro que assiste e fica
a ver o que também gosta:
aos sete fogueava incandescente
e só aos nove deixou de ser gente!
podes-lhe dar três ou trinta nós
na varanda, na sala ou no quarto
que ele em pé e de viva voz
te diz “vergo mas não parto!”:
aos sete espirrava alegremente
e só aos nove morreu descontente!
Janeiro/2026
dedicado à que monta incansávelmente e ao que espirra alegremente